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Professor da Unicamp apresenta em Paris dispositivo alternativo para imersão sonora

 

Por Elcio Ramalho

 

O pesquisador e professor da Unicamp, José Augusto Mannis, apresentou em Paris, durante o Forumnet, evento reunindo especialistas do mundo inteiro das áreas de tecnologia sonora e música contemporânea eletrônica, o resultado de suas pesquisas com um dispositivo dotado de um sistema de gravação e de reprodução de som multicanal.

O aparelho – desenvolvido no LASom – Laboratório de Acústica e Artes Sonoras do departamento de Música do Instituto de Artes da Unicamp – grava sons em ambientes de imersão sonora e permite aos ouvintes se sentirem dentro de um campo acústico como se estivessem no local de origem onde o som foi captado.

Segundo o professor Mannis, há várias técnicas para promover a imersão sonora, mas o experimento realizado no laboratório da Unicamp propõe uma alternativa a partir de um aparelho com seis microfones dispostos em círculos.

Deste modo, explica o especialista, o ouvinte tem a sensação de ouvir o som de vários lugares, de frente, de trás e dos lados, podendo focalizar sua atenção em qualquer uma dessas opções, sem perder a percepção sonora dos demais.

“A experiência permite ao ouvinte ter a sensação de estar no local onde o som foi gravado, embora sentado em um estúdio ou centro de monitoramento”, explica.

Para validar o dispositivo, Mannis e sua equipe de pesquisadores gravaram sons de ambientes distintos como a natureza, no cerrado mineiro perto da região de Brumadinho, e o urbano, representado pelo calçadão no centro de Londrina (PR). O experimento ainda contou com os registros feitos com a orquestra Sinfônica de Campinas dentro de uma sala de concertos, e em uma roda de samba.

As pesquisas do LASom agora serão desenvolvidas em parceria com o grupo de pesquisa espacial do Centro de Pesquisa e Coordenação Música/Acústica (IRCAM), organizador do Forumnet.

Ponte França – Brasil

Formado em Música na UNESP e com especialização na França, onde fez pesquisas acadêmicas e trabalhou em empresas envolvidas com criações artísticas sonoras, José Augusto Manni ajudou a instalar no Brasil a filial do Centro de Documentação de Música Contemporânea (CDMC).

A instituição, baseada em Paris, tem como propósito documentar e promover a música erudita experimental. A filial brasileira, da qual Mannis foi coordenador entre 1989 e 2006, completa 30 anos e continua em operação.

“A vantagem do CDMC é que tem uma documentação ágil e rápida de maneira que disponibiliza, num prazo muito curto, obras para os músicos e para os pesquisadores de música”, ressalta.

Incentivar a radioarte

Além de pesquisador e professor da Unicamp, José Augusto Manis exibe no currículo outras competências como designer gráfico, compositor e produtor artístico radiofônico, uma de suas atividades preferidas. Nos últimos 10 anos, Mannis tem desenvolvido projetos com a artista sonora e radialista Janete El Haouli, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

“Nós manipulamos voz, gravações de ambientes, jogos de sons e de escuta de maneira a criar no ouvinte uma atenção construtiva, para que surjam novos sentidos, sensações auditivas e novas expressões dessa montagem sonora”, explica Mannis, um entusiasta da radioarte no país, conceito que abrange as criações sonoras experimentais.

O especialista cita a Alemanha e a França, países que incentivam projetos artísticos sonoros como a criação de laboratórios e um ateliê específico para as criações radiofônicas, para servirem de exemplos para o Brasil.

“No país, essa expressão artística é feita sob encomendas de alguns trabalhos ou está na programação de algumas emissoras, mas de maneira muito pontual”, afirma.

Mannis cita como uma experiência importante no Brasil a participação do país na Documenta 14, uma das maiores mostras de arte contemporânea do mundo, realizada em 2017 em Kassel, Atenas. Durante um mês, a Rádio MEC foi a sede da Rádio Documenta, criada especialmente para a edição e que difundiu na sua programação criações radiofônicas consideradas inovadoras.

O especialista também faz referência a iniciativas como da Rádio Universitária UEL de Londrina, que já propôs em sua programação trabalhos sonoros criativos e contemporâneos.

Mas ainda é pouco, segundo ele. “Espero que as rádios e seus dirigentes incentivem esse veículo para que tenha capacidade não somente de veicular notícias, músicas e entretenimento, mas também valorizar o imaginário sonoro da rádioarte”.