Sociedade

Debatedores: diálogo é solução para ódio contra a comunidade LGBT

Na parte da tarde do seminário nesta quarta-feira, o ódio nas redes sociais foi um dos principais temas debatidos.
Na parte da tarde do seminário nesta quarta-feira, o ódio nas redes sociais foi um dos principais temas debatidos.
Gabriela Korossy / Câmara dos Deputados

Representantes da sociedade civil, religiosos e deputados defenderam nesta quarta-feira, na Câmara, a ampliação do diálogo com a diversidade para combater o discurso de ódio presente em redes sociais contra minorias, em especial contra a comunidade LGBT. Eles participaram do 12º Seminário LGBT do Congresso Nacional, que tem o tema “Nossa vida d@s outr@s – A empatia é a verdadeira revolução”.

Para Raquel Recuero, pesquisadora das áreas de redes sociais e comunidades virtuais e professora da Universidade Católica de Pelotas, o discurso de ódio presente nas redes sociais está relacionado ao poder simbólico e às formas de dominação. “Acabamos reproduzindo e legitimando com curtidas esse discurso online”, alertou.

Recuero afirmou que analisou redes sociais e viu associação de discursos de ódio contra minorias, como homossexuais e negros, em especial em uma cultura de indiretas com piadas críticas: “A piada reforça o discurso negativo. As pessoas são culturalmente preparadas para falar algumas coisas.” De acordo com ela, deve haver um enfrentamento não em relação às pessoas que proferem discursos de ódio, mas ao discurso em si. A pesquisadora defendeu o investimento em educação para as redes sociais, para evitar a reprodução de discurso de ódio.

Ódio no Facebook


Para o coordenador da Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, deputado Jean Wyllys (Psol-RJ), o Facebook é o lugar por excelência do ódio. “As pessoas estão se excluindo porque não conseguem dialogar”, lamentou. De acordo com ele, é necessário ampliar a escuta empática entre a comunidade LGBT e a população cristã. O parlamentar comentou sobre os ataques que sofre em redes sociais: “Não sou uma máquina. A minha mãe assistindo a isso é doloroso.”

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) afirmou que as manifestações de ódio, desrespeito e desconsideração nas redes sociais “projetam-se em ondas na realidade objetiva”. Segundo a parlamentar, o discurso das redes sociais compõe e produz a realidade. “Temos de analisar como o discurso da fobia de gênero produz uma violência que chega a níveis insuportáveis”, afirmou.

Intolerância religiosa
A secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), pastora luterana Romi Bencke, disse que o grande desafio hoje em relação à violência é a intolerância religiosa, em especial a intolerância cristã. “Essa intolerância nos mostra a falta da abertura para estabelecer um diálogo saudável entre tradição e o processo de modernização. A falta de diálogo faz com que a própria religião fique fora do tempo”, disse.

De acordo com a pastora, o Estatuto da Família (PL 6583/13) em discussão na Câmara é uma forma de projeto restaurador do mundo proposto por uma visão religiosa sem diálogo, assim como a “cura gay”, a redução da maioridade penal e a idealização da mulher como mãe. “A base da intolerância está na dificuldade do reconhecimento no outro. É uma arrogância identitária”, avaliou. Segundo Romi Bencke, a “extrema direita” no Brasil descobriu que a religião é um elemento interessante para levar adiante suas concepções de mundo.

Já o padre da diocese de Lorena (SP) Wagner Ferreira da Silva falou que o ódio nas redes sociais é a ponta do iceberg da violência. Ao citar falas de papas, ele afirmou que a paz corre perigo quando a dignidade humana não é respeitada, quando a convivência não é orientada para o bem comum: “A violência é o mal, é inaceitável como solução para os problemas.” Segundo ele, o uso da violência constitui deformação das práticas religiosas.

Humor
Pedro HCM, idealizador do canal de humor Põe na Roda, composto por jovens LGBT, contou que o humor foi a forma encontrada para poder falar sobre questões próprias da comunidade e de sexualidade em geral: “Juntei duas características minhas, que são fazer humor e ser gay. É curioso conseguir cativar a empatia com heterossexuais pelo canal. Conseguimos de maneira leve e sem tabu tratar de temas que normalmente são mais sérios.”

Diálogo
O deputado Flavinho (PSB-SP) ressaltou a importância do seminário e disse que, apesar de discordar de posições do deputado Jean Wyllys, compreende a importância do diálogo para trabalhar contra a violência. “Vamos somar forças para que ninguém seja submetido a menos direitos. Acredito no estado laico, apesar de ter uma fé católica bem embasada.”

Wyllys ressaltou a alegria em ver no seminário discursos de empatia e de maior diálogo entre a comunidade LGBT e cristãos. Maria do Rosário elogiou os discursos dos deputados Jean Wyllys e Flavinho. “Percebo uma conexão que não é para este momento, mas histórica. Se conseguirmos recuperar o tema da laicidade no âmbito da estrutura pública e do Estado, teremos um elemento fundamental para um Brasil que é multicultural, multirracial, multirreligioso e não religioso.”

O seminário é realizado por três comissões da Câmara (Legislação Participativa; Cultura; e Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática) a pedido dos deputados Jean Wyllys, Luiza Erundina (PSB-SP), Glauber Braga (PSB-RJ), Janete Capiberibe (PSB-AP) e Luciana Santos (PCdoB-PE). O evento continuará nesta quinta-feira (21), com debates sobre agressão, injúria e difamação pela manhã; e sobre tolerância e respeito às diferenças à tarde.

 

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