Politica

Para o futuro da Secom no governo Dilma, a regra do jogo é simples: Quem não faz, toma

Dilma, Helena Chagas e Thomas Ttraumann
Dilma, Helena Chagas e Thomas Ttraumann

por Conceição Lemes

A presidenta Dilma Rousseff  acaba de anunciar o novo ministro das Comunicações: o deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP), substituindo Paulo Bernardo (PT-PR), que ficou muito abaixo da crítica e do esperado.

Berzoini terá sob sua responsabilidade as políticas de radiodifusão, telefonia móvel e fixa, internet e inclusão digital. Também o encaminhamento do debate sobre a regulação econômica da mídia no Brasil.

Ultimamente, ventilou-se que o Ministério das Comunicações (MiniCom) passaria a cuidar da distribuição de verbas de publicidade do governo federal, hoje a cargo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR).

O Minicom turbinado vingará mesmo? Afinal, há conflito de interesses, já que incumbir o órgão fiscalizador de gerir os quase R$ 2 bilhões de verbas publicitárias seria como colocar a raposa para tomar conta do galinheiro. Aguardemos.

Mas a questão aqui é outra: quem cuidará da política de comunicação no segundo mandato de Dilma?

Refiro-me à comunicação de informações ao público em geral e à imprensa. Ficará com a Secom/PR? Ou será incorporada ao poderoso Minicom?

Em 25 de novembro, saiu no Painel da Folha de S. Paulo uma nota jeitosamente plantada a favor de Edinho Silva, então tesoureiro da campanha de Dilma e ex-presidente do PT-SP. Atentem a ela:

Edinho na Secom

Sinal de que para o chamado mercado a Secom/PR não passa de um cofre que enche as burras da mídia de dinheiro para depois o governo federal apanhar feito cão sarnento. Nada mais.

Só que o buraco é bem mais embaixo.

No mundo atual, as armas mais letais são a bomba atômica e a comunicação.

Em relação à bomba atômica, não adianta espernear. Desde 18 de setembro de 1998, o Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Antes, a Constituição de 1988 já determinava que o País não teria artefatos atômicos de ataque.

A comunicação, porém, pode funcionar como uma “bomba atômica”, dependendo da competência e motivação de quem a utiliza.

Mas, a se manter a política atual de comunicação do governo Dilma e do próprio PT, o resultado será um traque, no máximo — daqueles de festas de São João. Pior que o nosso vexaminoso 7 a 1 para a Alemanha. Com a diferença de que o que está em jogo é o futuro de um projeto progressista de País.

Falta de entendimento do que é comunicação à sociedade e à imprensa? Covardia? Incompetência? Acomodação?

O PT existe há 30 anos. Apesar dessa longa trajetória, seus dirigentes (vários) ainda não entenderam a importância de informar clara e verdadeiramente à população para que esta forme uma opinião baseada em evidências e fatos concretos. Tanto que não tem estrutura nem estratégia de comunicação. Parece cego perdido em tiroteio quando atingido por um fato negativo. Sua reação é a de um paquiderme letárgico.

Falta-lhe até hoje um “jornal” para todo o país. Os sites e boletins eletrônicos são malfeitos e amadores em termos de conteúdo e forma. Carecem de padronização. As redes sociais e a internet só funcionam em época de eleição. O que é uma pena.

O próprio site do PT nacional é, ainda, lastimável. Quando, por exemplo, começou a discussão sobre os gastos de campanha e doações de empresas ligadas à Operação Lava Jato, ele se limitou a mostrar apenas as contas dos seus adversários. Só que deveria ter feito em primeiro lugar a divulgação de suas próprias contas e doadores. É falta de senso de realidade brigar com a verdade factual, além de dar bala para o inimigo, pois como se sabe as empresas do esquema da Lava Jato patrocinaram candidatos de todos os partidos, com exceção do PSOL.

Então por que o site do PT agiu assim? É o mesmo que ficar recitando loas diante do espelho. Se tivesse feito o inverso, a militância teria material para debater e defender com propriedade o assunto.

Não bastasse tudo isso, assistimos continuamente ao PT privilegiar a mídia tradicional, dando-lhes notícias em primeira mão, apesar de ela lhe baixar o sarrafo dia sim, outro também.

O sonho de consumo de muitos dirigentes petistas continua sendo as Páginas Amarelas da Veja, oFantástico e o Jornal Nacional da TV Globo. Nós, blogosfera progressista, só somos lembrados quando a vaca já está atolada no brejo.

Será que o PT sofre da síndrome de vira-latas ou da de Estocolmo? É o desejo de ser aceito pela Casa Grande ou sabujice? Ou será que gosta mesmo é de apanhar pura e simplesmente?

Toda essa crítica vale para o governo Dilma. Com um adendo. A Secom/PR, como bem sacaram os executivos das emissoras de TV e das agências publicitárias, se tornou um cofre da mídia. É muita indigência.

À Secom/PR cabe o papel estratégico de formular a política de comunicação não apenas da Presidência, mas do governo federal como um todo, com integração dos serviços e das assessorias de comunicação (Ascoms) dos ministérios e estatais. É justamente o que este setor do governo Dilma não tem feito nem parece entender que necessita urgentemente dessas novas ações.

Por que o órgão, cuja missão é informar a população sobre as grandes ações do governo, neste último ano do primeiro mandato de Dilma diminuiu a produção de conteúdo?

Por que a Secom/PR prefere atuar no varejo, plantando uma notinha aqui e ali, em vez de agir no atacado, democratizando de forma concreta e transparente as informações para toda a mídia?

Por que a Secom/PR prefere privilegiar o veículo a ou b em vez de convocar coletivas para toda a imprensa, como faz Barack Obama, a cada manhã, antes de dar continuidade ao seu trabalho?

Quando Obama não está disponível, é o seu porta-voz que assume esse papel. Só que para isso é necessário que primeiro haja uma agenda da presidência para se trabalhar. Segundo, um porta-voz. Terceiro, ele tem de estar à altura da sua missão. Aliás, uma missão importantíssima do porta-voz é desmontar falsas informações plantadas pela mídia em geral e pela oposição e esclarecer dúvidas. Ao mesmo tempo, ser uma ponte direta com a população brasileira, não apenas com os eleitores de Dilma.

Por que a presidenta reiteradamente opta por jornalistas cinco estrelas da grande imprensa para tocar a Secom sem que eles tenham genuína afinidade com seu projeto progressista?

HELENA, O CONTROLE REMOTO E A CAPITULAÇÃO AOS INTERESSES DAS SEIS FAMÍLIAS 

De 1º de janeiro de 2011 a 31 de janeiro de 2014, a Secom/PR teve como ministra-chefe a jornalista Helena Chagas, que assessorou Dilma desde a campanha eleitoral em 2010.

Helena é uma colega gentil, de bom trato, mas que demonstrou ter visão equivocada sobre o papel estratégico da comunicação. Um dos lances mais emblemáticos dessa fase é o famoso “controle remoto”, de triste memória.

Dilma, sempre que questionada sobre a regulação dos meios de comunicação, repetia que o único controle que existe é o controle remoto, de forma que a pessoa possa mudar de canal de TV. Este virou seu mantra: “Não conheço outro tipo de controle da mídia. Sou rigorosamente contrária ao controle do conteúdo. É inadmissível censura à imprensa”.

Interpretação totalmente errada, que reproduz o pensamento da velha mídia. É como se as seis famílias que detêm o monopólio da comunicação no Brasil tivessem assento garantido e perene na Secom.

Infelizmente, nos três primeiros anos do mandato, Dilma, por falta de orientação ou ensejada por Helena Chagas, embarcou na mentira defendida pela velha mídia, que, até hoje, por má-fé  insiste em dizer que a regulação é “censura” e “atentado à liberdade de expressão”.

Resultado: na recente campanha eleitoral de 2014, o “controle remoto” virou “bumerangue atômico”, que, por pouco, não devastou a reeleição de Dilma.

Helena, aliás, não moveu uma palha para tornar mais equilibrada a relação do governo com os veículos da mídia tradicional. Ao contrário. Capitulou diante dos interesses das seis famílias monopolistas, tanto na relação quanto na distribuição de verbas de publicidade.

Valendo-se do critério da “mídia técnica”, baseado na audiência/tiragem, Helena favoreceu os maiores, contribuindo para a concentração na área (veja aqui e aqui).

Helena também não deu a devida importância à internet em geral, apesar de foi o único meio em franco crescimento. Em relação à blogosfera progressista, menos ainda. Éramos malvistos, devido às nossas críticas à sua atuação.

Os investimentos publicitários da Secom/PR em 2012 confirmam. De R$ 1,8 bilhão dos recursos, a internet ficou na rabeira, recebendo 5,32% dos investimentos, isto é, R$ 94 milhões. Os sites/blogs progressistas atingiram R$ 2,9 milhões. Ou seja, 3% do planejado para internet.

Na verdade, na gestão Helena Chagas, a Secom/PR financiou principalmente os grandes portais e os sites da velha mídia, todos de linha editorial conservadora, de direita. Reproduziu, assim, na internet o mesmo critério adotado em relação à mídia tradicional. Não à toa o chororô dos seus colunistas, quando Helena deixou a Secom no final de janeiro de 2014. Eles trataram a sua substituição pelo jornalista Thomas Traumann quase como um golpe. Traumann era até então porta-voz do governo Dilma, embora raras vezes tenha sido visto oficialmente exercendo esse papel.

TRAUMANN, MST, MATÉRIA CONTRA LULA E FLEXIBILIZAÇÃO DA VOZ DO BRASIL

Traumann é o atual ministro-chefe da Secom/PR. Ele trabalhou nas revistas Veja, Época e no jornal Folha de S. Paulo.

Em reportagem de 2001, na Folha, ele tratava as ocupações do MST como “invasões”, tal qual os ruralistas e arqui-inimigos do movimento, como Ronaldo Caiado e Kátia Abreu, a nova ministra da Agricultura:

Os importadores são considerados adversários porque o MST passará a ter como uma das suas principais bandeiras a “soberania alimentar”, a proposta para que o país produza internamente todos os alimentos que consome. Isso não significa, porém, que o MST vá parar com as suas mobilizações tradicionais. Mais de 1.500 famílias estão acampadas na beira de rodovias do Rio Grande do Sul em uma prévia de novas de invasões de terras.
O que multinacionais de biotecnologia, importadores de alimentos e invasões de terra têm em comum? A resposta foi dada em uma palestra recente pelo líder do MST João Pedro Stedile.

Será que ele pensa assim até hoje?

Em maio de 2014, o Viomundo publicou: Autor de reportagem de Veja contra Gushiken é contratado da Secom.

A matéria se referia ao jornalista Ronaldo França, que na edição de 6 de julho de 2005 da revista Veja, publicou a reportagem que começou a assassinar a reputação de Luiz Gushiken e a derrubá-lo do cargo de ministro-chefe da Secom: Ação entre amigos.

Na época, dissemos:

Independentemente da duração do trabalho e da qualificação do jornalista, essa contratação é estranha.

É mais do que um deboche. É um desrespeito à memória de Gushiken. É tapa na cara da família. É bola nas costas da militância, que sua a camisa e amassa barro. ´É um emblema de como Dilma, a direção do PT e o governo lidam com a Comunicação e estão reféns da mídia tradicional.

Ronaldo trabalhava como assessor especial justamente na Secom, que Gushiken chefiou. Ele foi levado para lá no início da gestão Traumann, como ministro-chefe da Secom/PR.

Curiosamente, 39 dias após a reportagem de França contra Gushiken, Traumann publicou na Épocadenúncia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi matéria de capa da edição de 15 de agosto de 2005. E o título era: Lula sabia.

Secom - Traumann

Thomas Traumann e Gustavo Krieger entrevistaram o então presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar da Costa Neto, que detalhou como teria recebido malas de dinheiro de Marcos Valério, supostamente a mando do PT.

Traumann é um cavalheiro. Assumiu a chefia da Secom em fevereiro de 2014. Em 12 de março, participou de um almoço, em Brasília, oferecido pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – Abert. Na ocasião, afirmou: “o Poder Executivo está disposto a apoiar a flexibilização do horário da Voz do Brasil“,  uma das mais antigas bandeiras da Abert.

Secom- Traumann

Traumann discursando no almoço oferecido pela Abert, em Brasília

Em junho de 2014, atendendo à Abert, a Secom/PR optou por flexibilizar o horário do programa de 60 milhões de ouvintes, editando a Medida Provisória 648. Ela permitiu que, durante a Copa do Mundo (12 junho a 13 de julho), a Voz do Brasil fosse exibida entre as 19h às 22h — sem qualquer tipo de fiscalização.

Paradoxalmente, isso aconteceu no momento em que o governo precisava levar mais informações à população para combater o discurso da grande mídia contra a Copa.

Em setembro, em pleno processo eleitoral, a Secom determinou ainda a retirada do ar da TV NBR, entre 0h e 08h. A NBR é a única emissora que transmite as informações oficiais do governo para todo o País. Por que tal medida?

Para completar, o atual ministro não mudou a lógica de distribuição de verbas publicitárias, privilegiando aqueles mesmos veículos que dia e noite fazem campanha contra Dilma, o partido e suas ações. Quem manda na publicidade do governo continua sendo o secretário-executivo da época de Helena Chagas, o “bacaníssimo” Roberto Messias (veja aqui e aqui).

Certamente alguns devem estar se perguntando: para que relembrar esses fatos nessa altura do campeonato?

Para reflexão nossa. O governo Dilma, em hipótese alguma, pode cometer no segundo mandato os primários e graves erros na área de comunicação dos seus primeiros quatro anos.

A perspectiva é de muita guerra. A grande mídia e a oposição não vão dar trégua. E se Dilma não tiver uma equipe competentíssima, afinada sinceramente com o seu projeto progressista, vai ser uma tragédia.

O governo Dilma gosta de dormir com o inimigo? É muita promiscuidade. Por exemplo, eu sei de um ex-ministro que durante o seu mandato tinha em São Paulo um assessor de imprensa, que, por acaso, era o mesmo de um secretário tucano do governo Alckmin.  Como assim?! Pesquisem e descubram.

É cada vez mais comum no governo federal a contratação de empresas de assessorias de imprensa para prestar serviços específicos, até briefings e planejamento de campanhas estratégicas para o governo federal.

Acontece que: 1) algumas delas têm como donos tucanos explícitos & cia; 2) em geral, elas servem a vários senhores, inclusive da direita e da ultradireita que querem destruir o PT e a possibilidade de um governo voltado para o social.

Portanto:

1) Para se implementar uma nova política, a gestão da comunicação não pode ser terceirizada a empresas ou a ex-funcionários proprietários de empresas.

2) Por ser um espaço estratégico, a Secom deve ser ocupada por quadros comprometidos com o projeto, que compartilhem valores que movem um governo progressista.

3) Na comunicação institucional, é preciso subverter a lógica tradicional que prioriza a relação do governo com a chamada grande imprensa. Essa relação reducionista impede a articulação de ações integradas e inovadoras que potencializam uma comunicação mais direta, transparente e ampla entre o governo e a sociedade como um todo.

4) A Secom precisa exercer o papel de coordenadora da comunicação do governo junto aos ministérios, para articular política e estrategicamente uma agenda e um discurso capazes de influir no debate político nacional. E não ficar refém do discurso da grande mídia como tem sido até agora.

5) A Secom tem de ser tudo ao mesmo tempo: coordenadora das grandes linhas de comunicação e disseminadora de informações, assessora de imprensa e analista política. Sobretudo ser rápida no gatilho. Sair na frente, agir, partir para ataque.

Essas são as luzes que Dilma deveria lançar na sua nova Secom/PR. Afinal, quem não faz, toma.

Print Friendly, PDF & Email

Faça um comentário

Clique aqui para fazer um comentário