Politica

Alugo para casal sem filhos

 

 

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa

Por: Ataíde Santos

Brasília, a cidade do sonho de Dom Bosco e materializada por Juscelino Kubitschek, tem também seu lado pesadelo.

Quem mora em Brasília há mais de cinco anos e ou quem tenha mais de quinze de idade, certamente irá se lembrar dos famosos e numerosos barracos de fundo.

Um dos sonhos de muitos casais é formar uma família. Ter filhos. Mas no Distrito Federal, aquele que assim o fizesse e não viesse de família rica, veria nos filhos um grande problema para encontrar um lugar para morar.

Os donos de cortiços ou os proprietários de casas construíam nos fundos de seus lotes “barracos”, e tinham verdadeira ojeriza à crianças. Por isso, os pais sofriam amargamente para encontrar onde abriga-las. Era uma praxe na capital do Brasil.

Homens vestiam uma camisa de mangas compridas, uma gravata, um sapato de solado gasto e sob o braço, uma pasta colecionadora, aquelas coloridas, com elástico e que de tanto uso já tinha até marca de desbotamento do suor das axilas dos seus portadores.

Mulheres usavam um blazer surrado, uma meia calça ou uma calça comprida preta e um sapato de salto alto. Uma maquiagem mal feita ornado por cabelos que já foram arrumados, mas que o vento já lutara contra, completavam o quadro.

No Setor Comercial Sul, filas imensas se formavam logo ao amanhecer e se prologavam por várias horas ou até dias, compunham o cenário do principal centro comercial da cidade centro do poder nacional.

Nas mais das vezes, as imensas filas formadas eram para concorrer às vagas de empregos. Eram seiscentas, setecentas ou mais pessoas concorrendo à  mera meia dúzias de vagas para trabalhos árduos e salários absolutamente incompatíveis. Daí gerou-se a busca frenética de uma vaga no serviço público, o sonho era entrar pra folha de pagamento do governo, entrando pela janela ou não. –Amarrei meu burro na sombra – Era o que se dizia quando isso acontecia.

Enfermeiros, médicos e atendentes do serviço público de saúde se portavam de modo arrogante, olhando quem deles precisava, com distanciamento, olhavam-nos de cima para baixo, e não raro os pacientes voltavam para seus “barracos” doentes e sem atendimento.

Em qualquer serviço público o pobre e mal trajado era considerado como estorvo. E as humilhações eram abundantes.

Pelas manhãs, na periferia de nossa ilha da fantasia, viam-se mulheres grávidas puxando algumas crianças pelo braço, e na outra mão um saco com três ou quatro pães e um litro de leite entregue em longa fila não sem antes receber palavras ásperas de quem entregava. A “doação” deveria alimentar aquela família por no mínimo 24 horas.

Vez ou outra passavam as mulheres com uma cesta básica, que já havia sido dividida em duas antes de serem entregues a essas mulheres.

Também foi noticiado que crianças foram obrigadas a sair da sala de aula por não ter livros ou mesmo uniforme.  Em certa ocasião, dois irmãos dividiam um par de chinelos. Um entrava na escola e depois passava pela janela os mesmos chinelos para que o outro pudesse entrar.

Não eram raras as vezes que em ônibus velhos e superlotados, motoristas e cobradores, investidos da autoridade que lhe eram peculiares “mandavam” descer em qualquer lugar, quando ao entregar o “vale transporte”, aquele havia vencido no dia anterior. Humilhado o “usuário” descia apressadamente para que não lhe vissem o rosto, na busca inútil de preservar o resto de dignidade que ainda lhe restava.

Este é um quadro minimamente descrito do que ocorria no centro do poder nacional.

E aí os ventos sopraram em direção contrária, acendeu-se uma luz no fim do túnel. Mas as mudanças exigem tempo. Igualmente como uma fruta, precisa e tem seu tempo de maturação.

Hospitais, escolas, estradas e moradias não são construídos de uma hora para outra, e nem pessoas.

Brasileiros são imediatistas e querem tudo pra ontem, talvez para garantir já de imediato o que nunca tiveram. São ansiosos e ainda tem entranhado em sua psique o ditado “Em casa de pirão pouco, primeiro o meu.” Como consequência à ansiedade, não se pensa, não se reflete, não se pensa coletivamente, não se vê o todo, mas apenas o individual.

O que mudou na minha vida nos últimos anos? O que recebi e fiz para melhorar a minha vida e de meus familiares, amigos e vizinhos e até dos moradores que desconheço de minha cidade?

Será atribuição do padre, pastor, pai de santo, guru ou assemelhados ligar nas pessoas os botões que os leve a pensar de forma coletiva?

Será atribuição das diversas religiões ditar o comportamento das pessoas, com vestir, cortar cabelos, comer e se comportar? Cadê a capacidade de observar e fazer uma avaliação do momento que se vive e projetar o futuro?

Amanhã, Brasileiros de todos os rincões irão às urnas, elegerão seus representantes. Aqui, no palco das decisões nacionais, também. Em quem iremos votar é decisão de foro íntimo, votamos em quem mais se assemelhe a nossa forma de pensar e agir.

Estamos sendo justos?  Estou decidindo por mim ou porque me disseram que fulano é melhor para continuar fazendo o que está sendo feito para melhorar, nossa cidade, nossa comunidade, nossas vidas?

Se todos estiverem infelizes e somente eu feliz, eu conseguirei ser realmente feliz. Eu sou autossuficiente? Eu planto o que como, costuro as minhas roupas, fabrico os meus remédios, me auto diagnostico, aprendo   comigo mesmo e me auto reproduzo?. Se assim for, pense em você, somente em você e… bom voto! Se chegar à uma conclusão que o bem coletivo também lhe faz bem, então… você realmente terá dado um bom  voto!

Não custa lembrar  que democracia é: Governo do povo, pelo povo e para o povo. E o que é povo? A maioria ou minoria?  Só os religiosos? Só os ricos?, Só os LGBT’S? Só banqueiros e empresários?  Só os negros?

Sinceramente, não gostaria de tornar a ver uma placa escrita assim: Aluga-se para casal sem filhos.

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