O culpado é…

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Final de tarde, a luz do sol já se confundia com as da iluminação pública. O vento fracamente soprava e refrescava meu rosto. A liberação de endorfinas, provocada pela caminhada que fazia, me deixava ainda mais com cara de bobo. Já me disseram isso: “Você caminha com um sorriso no rosto, com cara de bobo,  dá vontade perguntar: Tá rindo de quê?” Ia displicente,  mas ao cruzar, ou melhor, me aproximar de uma jovem mãe acompanhada de sua filha, eu vinha logo atrás, não pude deixar de ouvir. ─ não uso fones para musicas durante as caminhadas ─ a conversa das duas. Dizia a mãe à filha de  mais ou menos de três, quatro anos: ”Isso mesmo filha, se algum homem se aproximar de você ou lhe tocar, grite bem alto: Socorro! Socorro! Mamãe, Mamãe! “

A filha obediente à orientação da diligente mãe, simulou o grito por socorro. Imagine aí aquele grito tão agudo que chega doer nos ouvidos e que só as crianças conseguem emitir. Agora multiplique os decibéis, multiplicou? Chegou próximo do que ouvi. ─ Muito bem, isso mesmo. Disse mamãe, orgulhosa da obediente filha e nesse momento foi mais enfática: “Só a mamãe pode tocar em você”.  Ao ultrapassá-las, virei a cabeça para ver os rostos em questão.  Mamãe, podemos reputar como de beleza mediana. a filha, tem a beleza comum a meninas daquela idade. Desejei que mamãe fosse mais cautelosa ao ensinar certos cuidados a sua filha. Segui em frente,  mas trouxe-as   em meus pensamentos. Que será que a jovem mãe sofreu para dar tal orientação à filha? Será que não  é apenas fruto da assistência dos telejornais e redes sociais de internet?

Não sou psicólogo, mas a sabedoria que o tempo a todos proporciona me questionou: Será eu com esse tipo de ensinamento essa garotinha que chegará a idade adulta não trará problemas de relacionamento com os homens? Será que revestida pela armadura que sua mãe lhe está colocando, isso não evoluirá para pessoas em geral e não somente os de sexo oposto? Não obtive respostas e tentei larga-los ao esquecimento. Obvio, não consegui.

Em conversa com uma amiga, comentava ela sobre a violência em nosso país. Porque isso tudo? Entramos no: Antigamente não existia isso. Será? Ou simplesmente não tínhamos conhecimento das aberrações ocorridas.  Poucas eram as fontes de notícias, ao contrário de hoje. Em quem confiar? Perguntei, e ela respondeu: Em ninguém. E continuou:  “Filhos matam pais, pais matam filhos, esposos as esposas e vice versa, namorados as suas correspondentes, amigos se assassinam e por aí vai…” E eu: É… Tá difícil se relacionar, não sabemos com quem estamos falando, e ela: “Está difícil viver.” Cabisbaixo me  despedi. Mas restaram-me algumas indagações: No Brasil, isso se evidenciou quando? De junho de 2013 pra cá as pessoas se despojaram das máscaras e sob a sensação de impunidade mostram suas verdadeiras faces? Será que o grande número de autoridades, a quem até então se nutria deferência, estarem em constante destaque na mídia, cada vez mais de forma negativa, não tem influenciado  esse tipo de comportamento da sociedade? Será que estamos de fato vivendo no mundo onde todos são suspeitos? Se assim for,  onde estará o mordomo?

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