Cidade Holístico

Ainda dá tempo

Por Ataíde Santos

 

Era  fim de tarde ou início de noite, vislumbrava-se  no horizonte poucas nuvens ainda iluminadas pelo últimos raios de sol.

O calçadão  estava repleto de pessoas que faziam sua caminhada diária. Alguns corriam, outros usavam skates, outros  patinetes… e nesse vai-e-vem,  ciclistas passavam velozes entre toda essa gente. Um grupo de adolescentes na busca de sua autoafirmação transitavam perigosamente entre as pessoas equilibrando-se na roda traseira  de suas bicicletas. E a vida segue nesse cenário comum de todas as tardes.

Arrumava ainda o fone de ouvido, (existe um que não seja de ouvido?), para iniciar a minha caminhada,  enquanto observava que a maioria das pessoas também usava. –Deve ser um modo de se isolarem dos demais, concluindo que eu mesmo já tinha aderido a esse apetrecho. A desculpa que arranjei para mim eram as “Rancheiras mexicanas” que ouvia quando ainda criança e aprendi a gostar de Miguel Aceves Mejia, mas que ainda hoje ouço com muita satisfação músicas de Juan Gabriel, Rócio Durcal entre outros. Muito bem, como dizia, o tal fone evita você ter que responder um comprimento de alguém  mais afoito e ou mesmo responder uma pergunta que alguém por ventura lhe faça, tipo: -“Dá licença senhor? ,posso  tomar um minutinho do seu tempo?” “Aceita esse panfleto? Aqui tem uma mensagem do “senhor” para sua vida”, entre outras.

Refletia sobre esse isolamento em meio à multidão que estamos nos impondo. Foi quando vi que desceu do ônibus urbano um grupo de pessoas. Na sua maioria, trabalhadores voltando para suas casas. Percebi que iriam cruzar o meu caminho, por isso parei para que passassem. Vi então que dentre eles, um senhor de 55/60 anos de idade, porte mediano, magro, não prestei atenção ao seu  rosto,  iria passar por trás de mim, abri os braços ao molde dos comissários de bordo das aeronaves comerciais quando orientam os passageiros; para que ele passasse pela minha frente. Nesse momento percebi surpreso que o homem me abraçou, eu correspondi sorrindo e lhe respondendo o boa-noite com um “Deus te abençoe” e ele: Muito obrigado! Seguiu seu caminho e eu o meu. Mas levei-o nos meus pensamentos. Confesso que fiquei feliz pelo abraço inesperado.

No restante do percurso, pensava que as manchetes sangrentas dos jornais, o incentivo à violência dada por que devia coibi-la, ainda não chegou a todos. Concluí que ainda dá tempo de parar um pouco e refletir o nosso papel na sociedade. Dá tempo de aprender que a felicidade que ansiamos, não será encontrada na derrota que impusermos ao nosso semelhante, No matar a pessoa que já não tem mais nada a nos ensinar ou aprender conosco e por isso prefere findar um relacionamento de anos ou apenas de meses. Entendi que a felicidade não tem uma única face, que ela tem mais facetas que as  estrelas que avistamos no céu. Que essa felicidade, companheira que queremos, não é a que diz a televisão, não a encontramos nas fórmulas passadas pelos que com palavras de bela sonoridade nos oferecem a mágica do “trago seu amor em três dias” “venda o que tem e oferte para a igreja e deus te dará muito mais” “Desmancho qualquer tipo de “trabalho” feito”. A felicidade não vem num pacote de compras num shopping elegante, não vem tampouco como acessório do carro último modelo, ou na caixa da arma que dispara dezenas de tiros por segundo.

Dá tempo de aprender que quanto mais nos sintonizarmos em violência, mais presente ela estará em nossas vidas.

Hoje aprendi que existem pessoas que a arma que possuem é um coração simples cheio de boa vontade e amor pronto a entregar ao primeiro que encontrar pela frente com o coração e os braços abertos, receptivos a um abraço.

Aprendi que a felicidade,  essa senhora fugaz,  nos toca nas mais das vezes em momentos inesperados e na simplicidade de um gesto, num sorriso espontâneo de alguém, quando por qualquer razão estamos desanimados, cansados na luta cotidiana. Na gargalhada de uma criança. Até mesmo na algazarra juvenil de adolescentes que passam aos magotes indo ou vindo das escolas ainda sem entender direito para o que estão lhe preparando, no beijo da pessoa amada, sem nos preocupar por quanto tempo ainda estaremos juntos e desejar como o fez o poeta que esse amor “seja eterno enquanto dure”.

Não sei o nome daquele senhor, nem se tornando a encontra-lo o reconhecerei. Mas confesso mais uma vez: Aquele abraço  me fez muito bem. Aquele momento, de tão prófugo, está eternizado na minha memória e no meu coração. Tenho certeza que cada vez que lembrar a cena, não será sem um sorrisinho no rosto.  Muito obrigado amigo desconhecido! Pelo abraço e pela lição. Desejo profundamente que a felicidade lhe toque a cada dia.

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