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Rodrigo Rollemberg: “Temos de virar a página do impeachment”

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“Vemos a economia se esfacelar, os empregos irem embora e um deserto de lideranças políticas para conduzir a uma solução. E o impasse é o pior prejuízo para a população”

POR ANA DUBEUX, ANA MARIA CAMPOS, DENISE ROTHENBURG E LEONARDO CAVALCANTI

acredita que o Brasil vive um círculo vicioso em que a crise política alimenta a econômica, como moto-contínuo. “Não estamos vendo perspectiva de solução para esse problema. … O que estamos vendo é a economia se esfacelar, os empregos irem embora e um deserto de lideranças políticas para conduzir a uma saída da crise.” Mas, ao mesmo tempo, o governador do Distrito Federal é contra o impeachment. “Não temos, até aqui, elementos que comprovem o crime de responsabilidade da presidente da República. Fica muito claro que o presidente da Câmara está se utilizando desse processo”, diz Rollemberg, considerando que a presença de Eduardo Cunha no comando da Casa dificulta a construção de uma nova pauta para o país.

Para o governador, o país precisa superar o debate do impeachment. “As manifestações a favor do impeachment estão diminuindo porque as pessoas não estão percebendo alternativa ao impeachment. Daí a importância de construir uma agenda que unifique o país”, prega Rollemberg, que, em vários momentos, tem funcionado como uma espécie de interlocutor de governadores. “Eu converso com eles e percebo uma preocupação cada vez maior com o pagamento da folha salarial. O cenário que se apresenta para muitos é de agravamento dessa crise”, pondera ele, que, na última quinta-feira à tarde, deu entrevista ao Correio na residência oficial de Águas Claras.

Durante 90 minutos, ele falou sobre as crises financeira e da saúde no Distrito Federal, as greves e pressões do funcionalismo e abordou um dos temas mais tensos — segundo ele mesmo — do governo local até agora: a ação da PM contra professores e a saída do secretário de Segurança Arthur Trindade. Sobre o envolvimento do PSB na mais recente etapa da Operação Lava-Jato, expondo a imagem do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, Rollemberg foi rápido na resposta: “Apenas lamento que Eduardo não esteja aqui para se defender”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

“A presença de Eduardo Cunha na presidência da Câmara nessas condições dificulta uma nova agenda para o país”

“Lamento que o Eduardo Campos não esteja vivo para se defender. Mas, até aqui, não tem nada que leve ao envolvimento dele na Lava-Jato”

“Temos aqui os médicos mais bem pagos do país, jornadas de 20 horas, e hoje temos enormes dificuldades para compor as escalas de trabalho”

O senhor é contra o impeachment. Não acha que essa posição pode desgastar a própria imagem em relação a parte do eleitorado?
A gente não pode tomar uma posição em relação a um tema tão grave como esse, tão importante para a institucionalidade do país, com base em “se vai agradar ou não à maioria das pessoas”. O que está em jogo é o processo democrático e, no meu entendimento, não temos, até aqui, elementos que comprovem crime de responsabilidade da presidente. Fica muito claro que há uma disputa política entre o presidente da Câmara e a presidente da República. Ele está se utilizando do processo de impeachment para atingir os seus objetivos. Então, temos que ter cautela no momento de tomar uma decisão dessa magnitude.

O PSB vai apoiar a presidente?
O PSB ainda não tomou posição. Existem, no partido, posições favoráveis ao impeachment e posições contrárias. Os três governadores do partido já se posicionaram contra o impeachment. É claro que estaremos submetidos à decisão partidária, no momento em que o partido entender como adequado tomar a decisão.

O fato de se discutir o processo de impeachment é golpe?
Não, discutir o impeachment não é golpe. Mas entendo que precisamos superar esse debate. Acho que a falta de perspectiva, de uma agenda, está prejudicando o Brasil. Vivemos um círculo vicioso, a crise política alimenta a crise econômica, que, por sua vez, alimenta a crise política, e não estamos vendo perspectiva de solução para o problema. Com isso, o Brasil está tendo um grande prejuízo. Vemos a economia se esfacelar, os empregos irem embora e estamos percebendo um deserto de lideranças políticas para conduzir uma solução da crise. O impasse é o pior prejuízo para a população brasileira.

Cristovam diz que é muito cobrado por parte da população nas ruas. O senhor sente isso?
Hoje, o PT adquiriu uma rejeição muito grande em Brasília. As pessoas aqui atribuem ao ex-governador (Agnelo) a responsabilidade maior pela crise, mas o que mais vejo na população é uma expectativa de se resolver os problemas. Ou seja, a população quer a melhoria da qualidade dos serviços, quer a volta dos empregos, quer a volta do desenvolvimento econômico. Sinto que a insegurança sobre o futuro é o que traz a maior preocupação para a população.

A presidente Dilma vai recuperar a credibilidade?
O momento é muito difícil para todos os governos, em função das dificuldades econômicas. Se o cenário econômico não mudar, essa situação e as dificuldades políticas do governo só tendem a se agravar.

Mas o fato de a crise econômica estar atrelada à crise política faz com que muita gente ache que a permanência da presidente Dilma aumenta esse impasse.
Quando você percebe que as manifestações populares a favor do impeachment estão diminuindo, é porque as pessoas não estão percebendo uma alternativa ao impeachment. Ou seja, hoje o Brasil vive uma crise de falta de perspectiva, e o que é dramático nisso é que não estamos percebendo nenhuma liderança no plano nacional com capacidade de construir uma solução para a crise política.

Então, se houver o impeachment e o vice-presidente Michel Temer assumir, a crise continua?
O que a gente percebe é um comprometimento muito grande do PMDB com os fatos vinculados à Lava-Jato. Isso tudo traz instabilidade e uma falta de perspectiva.

Dilma conseguirá a coalizão?
Estamos vivendo em um país dividido e, qualquer que seja a solução para a crise, o país vai precisar se unir, minimamente, em torno de um programa comum de objetivos. A capacidade de articular forças em torno desse objetivo comum é o grande desafio do país no momento e, o que é dramático, não estamos vendo nenhuma liderança política.

A operação da PF avançou sobre nomes do PSB, como Fernando Bezerra e gente próxima a Eduardo Campos. Isso o constrange?
Até aqui, não tem absolutamente nada provado. É só uma investigação.

Não se sente incomodado?
Sem dúvida incomoda, mas, como disse, até aqui não tem nada que comprove algum envolvimento de algum quadro do PSB.

No caso do Eduardo Campos, a imagem dele fica comprometida?
Não, só lamento que o Eduardo não esteja vivo para se defender. Mas, até aqui, não tem nada que leve ao envolvimento do Eduardo.

Marina Silva viabilizou a Rede. Seria um caminho natural apoiá-la?
Temos o maior respeito pela Marina e uma alegria grande pelo fato de a Rede ter obtido sucesso em seu processo de registro, mas a decisão de candidatura presidencial do PSB passa por um longo processo de debate interno.

A ideia então é que o partido tenha um candidato próprio?
Não temos, hoje, no partido, um quadro de expressão política nacional que possa liderar uma campanha presidencial, mas ainda é muito cedo para definir um caminho. O fato é que o PSB certamente terá um processo importante na eleição presidencial, se com um candidato à Presidência ou não, é difícil dizer. Hoje, acho difícil termos um candidato a presidente.

Há alguma perspectiva de reaproximação com o PT, ou o PSB gravita mais em campo oposicionista?
O PSB teve uma candidatura oficial em oposição à candidatura da presidente Dilma, e, hoje, o PSB está em uma trajetória claramente separada do PT. Hoje, diria que a prioridade do partido é a construção de um programa mínimo que possa unificar o país e apontar uma solução para a crise política e econômica que nós estamos vivendo.

E como chegar a isso? De onde virá essa liderança?
Esse é o drama do país, estamos vivendo um deserto de lideranças políticas. É fundamental que essa liderança cresça dando ouvidos à sociedade civil, ao setor produtivo, à juventude, à comunidade acadêmica, à comunidade científica, e possamos construir um conjunto de propostas que possam levar o Brasil a sair desse ambiente de dificuldade. Diria que os valores fundamentais, nesse momento, seriam a democracia, a retomada do desenvolvimento e a redução das desigualdades.

O país vai sair mais dividido desse processo de impeachment?
Acho importante a gente virar essa página para que a gente tenha uma outra agenda de interesse do país. Se ficarmos discutindo o impeachment e essa situação não se resolver, tendemos a agravar a crise política e a crise econômica e ir para um enfrentamento que é muito ruim e que tem consequências maiores em Brasília. Por exemplo, ao longo desses 11 meses, conseguimos reduzir todos os indicadores de violência. Apenas em dois meses esses indicadores se elevaram, que foi em abril e em outubro. O que esses meses têm em comum? Foram meses de grandes manifestações, em que tivemos que deslocar uma parte grande das polícias para cuidar das manifestações, e isso acabou desguarnecendo outras áreas da cidade. Estou falando de uma consequência específica de Brasília, mas tem as consequências do plano econômico que são muito graves, daí a importância de a gente superar esse tema do impeachment, para que a gente possa construir uma outra agenda.

Se a Dilma chamasse o PSB para esse diálogo, o partido semostraria disposto?
O PSB, toda a vez que convidado, tem participado, tem procurado contribuir com a busca de soluções. Temos muito clara a nossa posição: não somos governo, não queremos participar do governo, mas o PSB está pronto para colaborar com tudo aquilo que for bom para o país.

A presidente Dilma fez pouco esse movimento em relação a partidos dispostos a conversar com ela?
Certamente. Há uma carência de diálogo no país. As pessoas estão dialogando pouco.

A culpa é dela?
A Presidência deveria ter dialogado mais. O governo tem uma responsabilidade muito grande de coordenar, de comandar um diálogo nacional, buscando alternativas para os desafios do país. Sinto é que, quando o país começa a se dividir, a gente vê isso nas redes sociais, as pessoas não debatem temas. Elas tentam destruir os adversários. Isso é ruim para o país.

Com toda a dependência do DF em relação à União, o senhor teria coragem de ser favorável ao impeachment?
É claro que todas as decisões que tomo, no cargo de governador, tenho que levar em conta o interesse da população de Brasília. Mas o fortalecimento da institucionalidade do país, da democracia, também é interesse da população de Brasília.

O que a demora na definição desse processo ocasiona?
A economia do país está derretendo. Temos um aspecto negativo e um positivo. O negativo é que podemos ter, ao longo destes dois meses, até depois do carnaval, um processo de degradação econômica muito grande, que agrave a situação que estamos vivendo e agrave inclusive a crise política em função da questão econômica. No tentano, é um tempo que pode ser utilizado para serenar os ânimos e buscar se construir uma solução política para a crise.

Quem ganha com essa pausa?
Disse à presidente há 60 dias, que quanto mais rápido fosse analisado o processo de impeachment, melhor seria para o país, qual fosse o resultado. A indefinição é o pior cenário. Do ponto de vista político e econômico, seria não ter recesso, e a Câmara e o Senado tomarem uma posição definitiva.

O PSDB, mais especificamente Aécio Neves, fez o movimento errado em relação ao impeachment?
Uma das questões que levou a uma falta de solução para essa crise também foi uma divisão do próprio PSDB. Percebo três posições, podem até estar se unificando agora, mas, ao longo do ano, tivemos três posições distintas. A do senador Aécio, que pretendia uma decisão via TSE com uma nova eleição; a do governador Alckmin, que gostaria que a presidente terminasse o seu mandato e chegasse desgastada para que ele pudesse ser um concorrente competitivo; e a do senador Serra, que gostaria de uma alternativa via PMDB, na qual ele poderia ser um homem forte no novo governo.

O envolvimento do PMDB naLava-Jato desgasta Michel Temer?
Isso torna mais instável a solução. Isso que está expressado pela população no momento em que você tem uma parcela grande que defende o impeachment, mas há uma redução da participação popular em torno do tema.

Cunha, no comando da Câmara, atrapalha o rito do impeachment?
Compromete a legitimidade. Enquanto ele for o presidente da Câmara, ele tem esse poder. Mas me parece que, para uma parcela grande da população, a questão do impeachment vem sendo barganhada em função da situação delicada que ele vive. Na minha opinião, isso tem feito a população refluir em relação à mobilização a favor do impeachment.

Ele tem hoje condições de presidir a Câmara?
Não. A presença do Eduardo Cunha nessas condições tem dificultado a construção de uma outra agenda para o país.

Os estados estão quebrados. Como o senhor vislumbra 2016 diante da situação que só se agrava?
Gostaria muito de acreditar que o Brasil pudesse melhorar. Mas os cenários apontados no horizonte não indicam isso. De qualquer jeito, o Brasil tem se mostrado um país muito resiliente e sempre tenho esperança de que possamos caminhar para um futuro mais promissor. Se a gente não resolver essa crise política rapidamente, a tendência é de o cenário econômico se agravar.

Inclusive no DF?
O DF, naturalmente, sofre consequências do cenário nacional. Aqui estamos procurando fazer o dever de casa, tomamos as medidas duras mas necessárias para o equilíbrio financeiro deve ser prioridade neste momento para que o DF possa cumprir seus compromissos com servidores públicos, fornecedores, prestadores de serviço, possa recuperar a sua capacidade de investimentos. Agora, dependemos muito da economia nacional. Se o Brasil tivesse uma expectativa de crescimento de 2% no próximo ano, nossos problemas econômicos estariam resolvidos. Equilibraríamos completamente o DF ao longo do próximo ano. Agora, estamos vivendo uma instabilidade econômica enorme. Iniciamos o ano com previsão de crescimento zero e estamos chegando ao fim do ano com redução do PIB em praticamente 3%. É claro que isso tem uma influência muito grande na economia do DF, além das implicações políticas, porque as manifestações políticas todas desembocam em Brasília.

Estas investigações da Lava-Jato apontam para o Estádio Mané Garrincha. Isso o preocupa?
O que sei é que as especulações de que a possível delação premiada da Andrade Gutierrez poderiam aparecer superfaturamento do estádio. O fato é que o estádio custou muito mais caro do que outros e sempre houve especulação de superfaturamento. Sem falar que foi um equívoco se gastar o que se gastou. Ainda que não houvesse desvios de recursos, construir um estádio daquele valor quando poderia ter sido construído um estádio menor que cumpriria as mesmas finalidades por um terço ou um quarto do preço.

Que papel o PSB pode desempenhar em 2016?
O PSB é um partido de muita credibilidade, que tem uma postura extremamente positiva e necessária nesse momento, não é um partido que se move por cargos ou por fisiologismo. Somos um partido que tem diálogo com todas as forças políticas que estão no Congresso Nacional. O PSB pode cumprir um papel importante no cenário político nacional. Gostaria de dar uma contribuição maior ao partido nesse momento, mas é claro que, para poder fazer isso, preciso estar com a casa arrumada, porque a minha prioridade absoluta é o DF, mas entendo que se tiver a possibilidade e a capacidade de contribuir através do meu partido para construir um caminho para o Brasil, também será uma forma de ajudar Brasília. Como interlocutor com as forças políticas do país, buscando e serenar os ânimos e construir alternativas que levem à superação dessa crise.

Como fica este impasse do comprometimento da folha de pagamento com pessoal, que atrapalha todos os governadores?
A médio prazo, constituímos um grupo, já tem 17 governadores, e o Movimento Brasil Competitivo, que estão discutindo uma reforma do Estado. Essa é uma agenda de interesse nacional. Ou o Brasil se unifica em torno dessa agenda ou terá a economia comprometida como a economia da Grécia. Temos a Lei da Responsabilidade Fiscal. Vejam como a situação de Brasília é dramática. Os recursos do fundo constitucional, que pagam a totalidade da segurança, e parte grande e cada vez maior da educação e da saúde, não são contabilizados para o efeito da lei, mas se eles forem contabilizados para efeito do orçamento real, como é, estamos com 80% dos recursos comprometidos com pessoal. As pessoas têm que entender que é por isso que, muitas vezes, faltam medicamentos, insumos em hospitais, manutenção de equipamentos, mobilidade urbana, coleta adequada do lixo, pagamento de terceirizados. Um conjunto de serviços que são pagos pelo custeio da máquina e comprometem completamente os investimentos.

Qual a saída, o que se pode fazer?
Tem que reduzir a máquina pública, que está inchada e é ineficiente. É fundamental reduzir a participação dos salários no conjunto do orçamento. Como fazer isso? Temos que democratizar esse debate sobre orçamento, porque a população tem que perceber que dinheiro não dá em árvore. A população tem que fazer uma opção, querer aumentar salários sem um ambiente de desenvolvimento, em que se está aumentando a arrecadação. Para aumentar salário nós temos que aumentar impostos, foi o drama que nós vivemos esse ano. Tivemos que encaminhar algumas propostas para a Câmara Legislativa de aumento de impostos para poder arcar com os salários já existentes e com a perspectiva de aumento a partir de outubro. O ideal é que a gente retome a atividade econômica e se possa aumentar a arrecadação a partir desse desenvolvimento, do aumento da atividade econômica e que por alguns anos o aumento de salários se dê numa escalada menor do que o aumento da receita em função do desenvolvimento da economia, senão nós estaremos sempre presos a esse dilema.

Essa discussão deve ser feita
junto dos sindicatos, não?
Analiso como um grande desafio porque há uma cultura dos sindicatos. Quando me propus, entre os dirigentes sindicais, a abrir completamente as contas, e mostrar a impossibilidade de dar um aumento, um sindicalista me disse: “O seu papel é governar e o meu é sindicalizar”. Como se não houvesse uma responsabilidade com o conjunto da sociedade. As lideranças sindicais mais modernas que vão prosperar no futuro terão que ter uma visão mais holística desse processo, de perceber que o Estado não aguenta. Se a gente continuar nesta perspectiva de apenas trabalhar aumento de salários, redução da jornada de trabalho sem o aumento da produtividade, e sem isso estar condicionado ao aumento da economia, o Estado vai falir, e o Estado falido não conseguirá sequer pagar o salário dos servidores públicos. E isso já está acontecendo em muitos estados brasileiros.

A pressão pra cima dos sindicatos vai ter um custo na eleição, afinal, Brasília é uma cidade de servidores. Isso não o assusta?
Digo com toda franqueza que não tenho a menor preocupação com eleição, mas sim com as consequências desse enfrentamento para o dia a dia da população ao longo do meu governo. E enfrentamos uma greve difícil. Veja a greve na saúde. Em Brasília, praticamente todos os servidores da saúde têm ou 24 ou 20 horas de jornada de trabalho. Nenhum outro servidor tem direito a isso. Temos um salário em um patamar bastante razoável, principalmente se comparado a outras unidades da Federação. E temos a economia em decréscimo, em recessão. Em São Paulo, 111 categorias profissionais fizeram acordo de redução de salário para manutenção do emprego. Nesse ambiente, os médicos de Brasília fizeram greve por 33 dias. Tive, ao fim, que cortar o ponto dos grevistas. Não tem sentido, temos que mudar essa lógica. Temos aqui os médicos mais bem pagos do país, jornadas de 20 horas, e hoje temos enormes dificuldades para compor as escalas de trabalho em função das jornadas de 20 ou de 24 horas, e num ambiente de recessão não tem sentido uma greve. E quem ficou com o prejuízo foi o conjunto da população. Nós não podíamos dar porque estávamos impedidos materialmente, não temos dinheiro e juridicamente porque estamos submetidos à Lei de Responsabilidade Fiscal. Os sindicatos sabiam que nós não poderíamos dar e insistiram em uma greve. Mas tivemos que enfrentar.

Uma greve política?
Sem dúvida. Uma greve política e uma greve sem sentido, porque, desde o início, sabiam que a gente não tinha como dar.

O governo discutiu a extinção da licença-prêmio pela pecúnia — que já não existe no governo federal e em outros estados —, mas não conseguiu porque a Câmara não quis votar. Se nem isso o GDF conseguiu acabar, como acabar com outros privilégios?
Na verdade, não propusemos acabar com a pecúnia. A ideia original era transformar a pecúnia numa licença-capacitação, mas houve uma resistência. E isso não afetaria os direitos adquiridos dos servidores. Realmente, o enfrentamento dessa questão dos interesses corporativos sempre terá muita dificuldade. Esse é um processo que a população tem que participar, e muitas vezes esse debate fica restrito a governos e sindicatos. A população está alheia a isso. E se sente apenas prejudicada pelas greves, e muitas vezes atribui a greve ao governo, quando nesse caso, estávamos impossibilitados economicamente e juridicamente de dar qualquer tipo de aumento. Ou seja, esse debate tem que ser feito com franqueza, com serenidade e profundidade. O que entristece é que nesse debate tem muita manipulação. Por exemplo, visitei o Instituto de Cardiologia do DF, que é uma entidade filantrópica, e 80% dos atendimentos no institutos são pelo SUS, ou seja, são absolutamente gratuitos para a população. Batemos recorde de transplante de medula óssea, de coração, de rins e fígado. Temos o Hospital da Criança, uma organização social, que é um hospital público, construído com recursos doados ao poder público e é sustentado com recurso público, presta conta dos atendimentos mensalmente. E todas essas alternativas, que compõem o SUS, junto da administração direta, enfrentam um enorme preconceito e combate das corporações e dos sindicados. E também do setor privado. Temos que enfrentar esse debate. Porque num ambiente em que estamos submetidos à LRF, temos dificuldade de contratar pessoal, temos que compor, sem que isso tire direito adquirido de ninguém ou reduza salário, mas compor uma rede de atendimento à população. Porque o que interessa à população é um atendimento adequado e gratuito, que tanto a entidade filantrópica quanto a organização social ou a administração direta propiciam.

Como se dá a manipulação dos sindicatos?
Ela se dá quando dizem que a gente quer privatizar a rede pública de saúde e que nós vamos acabar com os direitos dos servidores, e não é nada disso. São sistemas que convivem, e convivem bem em vários estados, são previstos no SUS e que contribuem para melhorar o serviço público de saúde. É para ampliar a rede de assistência sem comprometer os limites da LRF.

Os sindicatos são ligados ao PT. Em algum momento, o posicionamento do senhor contra o impeachment pode ajudar no diálogo?
Isso é uma questão de convicção pessoal. O dirigente sindical moderno terá que ter uma percepção, porque a inviabilização do Estado será também a inviabilização do setor público.

A boa relação com Dilma traz benefícios na Câmara Legislativa, como no apoio de Chico Vigilante?
Nesse ponto é claro que ajuda a relação com o PT, mas Chico Vigilante foi o deputado que mais trouxe desgaste para o governo, porque ao longo do primeiro trimestre ele manipulou muitas vezes os números do GDF, procurando dizer à população que nós tínhamos dinheiro quando ele sabia que não tínhamos. Ou seja, por exemplo, aparecia, no Siggo, recurso dos blocos da saúde, que só pode ser utilizado em determinado convênio, que é recurso próprio para aquele convênio. E ele dizia que o GDF tinha tantos milhões e não “paga salário porque não quer”, quando ele sabia que aqueles recursos não poderiam pagar salários. Quando efetivamente ele percebeu que recursos já não pagariam mais o salário daquele mês, ele teve a postura responsável e colaborativa e nos ajudou a garantir que a Câmara aprovasse a utilização de 75% dos recursos do superavit do Iprev para pagar salários. Ali foi a demonstração final de que efetivamente não tínhamos recurso. Agora tenho que reconhecer que em muitos momentos como esse do Iprev, ele teve uma atuação responsável no sentido de ajudar a cidade com o voto que deu.

Os empresários atrapalham?
Não, vejo uma ação muito colaborativa dos empresários com desejo muito grande de colaborar, há uma reivindicação justa, especialmente na área da construção civil, esse processo de autorização de construção, liberação de alvará, que é muito complicado. O que me preocupa é um movimento dos hospitais da cidade contra a vinda do Sírio-Libanês. Ora, tivemos um pró-DF, ao longo desses anos todos, que concedeu terrenos com desconto para qualquer tipo de atividade econômica, como supermercados, padarias, agências de automóvel, lanternagem. Agora, estamos falando de um empreendimento que além de empregar muita gente na construção do hospital, depois, permanentemente, oferece empregos qualificados na área da saúde, para médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, anestesistas. E, além disso, presta um serviço de excelência a população. Uma das vocações de Brasília é se transformar num polo de saúde. Portanto, temos alguns setores, que precisamos abrir para a concorrência. Primeiro temos que melhorar a saúde pública, e, para melhorar, hoje, estou absolutamente convencido de que temos que melhorar a rede pública fazendo a descentralização como estamos fazendo, com sete regiões, fazendo contratos de gestão entre as secretárias e os gestores, colocando metas para serem atendidas por esses gestores, cobrando e responsabilizando o gestor pelas medidas, descentralizando as decisões, dando mais agilidade.

O Brasil virar uma Grécia, o senhor vislumbra esse quadro?
Vislumbro esse quadro. Eu converso com os governadores e percebo uma preocupação cada vez maior com pagamento de folha salarial, governadores que já têm dificuldade de pagar o 13º este ano, ou que estão parcelando salários, e o cenário que se apresenta para muitos no ano que vem é um cenário de agravamento dessa crise.

Alguns aliados, como Cristovam, Reguffe, Augusto, reclamam que não são ouvidos. Ou o governador precisa tomar decisões sozinho?
O governador tem que tomar algumas decisões de caráter pessoal, que são de responsabilidade dele. Mas me reuni com o Cristovam pelo menos 20 vezes ao longo deste ano. Ouço o Cristovam. Não sei se o Cristovam como governador ouvia os outros atores políticos da cidade, como ouço. Ouço sim. Tenho, especialmente com Cristovam a quem tenho um grande respeito e reconheço a experiência de ex-governador, me reunido bastante.

Como reagiu às críticas de Cristovam sobre a atuação da PM no caso do protesto de professores?
Ele foi injusto porque se referiu a um episódio que não existiu. Disse que houve espancamento de professores. Disse a ele que me mostrasse qualquer imagem que aparecesse espancamento de professores. A polícia tinha que agir. Ia morrer uma pessoa ali. E quando a polícia age tem que ser com força. Mas ninguém ali saiu machucado. Foi uma ação dura para desobstruir, portanto, a forma como Cristovam se referiu me magoou profundamente porque as expressões que ele utilizou foram absolutamente inadequadas.

Esse episódio acabou provocando a saída do secretário de Segurança Arthur Trindade. Na demissão, ele disse que o secretário de Segurança é a rainha da Inglaterra…
O papel do secretário de Segurança é o que foi combinado com o Arthur desde o início. O secretário de Segurança não pode ter a pretensão de mandar na PM, de mandar na Polícia Civil ou de mandar no Corpo de Bombeiros. Ele deve ser um formulador das políticas de segurança pública e um coordenador da integração dessas áreas. Tenho muito respeito pelo Arthur e pela construção da nossa política de segurança pública, o Viva Brasília, nosso pacto pela vida, mas, num determinado momento, ele colocou como condição para permanência a demissão do comandante da PM e não aceitei essa condição.

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