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Retrospectiva 2015, ou como a resiliência derrotou a eloquência

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Por Fábio de Oliveira Ribeiro  –

Tenho visto várias pessoas criticarem Dilma Rousseff porque ela é tímida ao discursar, porque não tem uma boa estratégia de comunicação, porque é incapaz de motivar e inflamar a militância, porque se deixou intimidar pela imprensa e etc… Todos estes críticos da presidenta têm uma coisa em comum: a crença de que a política depende totalmente da eloquência, de que a habilidade de produzir discursos é o fundamento do poder.

Em razão disto, resolvi estudar a questão e reproduzo aqui uma lição antiga. Demóstenes e Cícero foram, entre gregos e romanos, os retóricos mais eficientes, audaciosos, graciosos e dramáticos. Ambos chegaram ao poder em razão de suas habilidades discursivas. Ambos caíram em desgraça e morreram porque nem só de discursos é feita a política.

“Parece, pues, haber sido un mismo genio el que formó a Demóstenes y Cicerón, y acumuló en su naturaleza muchas semejanzas, como la ambición, el amor de la liberdad cuando tomaram parte en el gobierno y la cobardía para los peligros y la guerra; con lo que mezcló también muchas cosas de las que son de fortuna; porque no creo que podrán encontrarse outros dos oradores que de obscuros y pequeños hubiesen llegado a ser grandes y poderosos, que hubiesen resistido a reyes y tiranos, que hubiesen perdido sus hijas, hubiesen sido arrojados de su patria y restituídos después com honor; que huyendo después hubieran sido alcanzados por los enemigos, y que en el mismo punto de expirar la liberdad de sus conciudadanos hubiesen ellos perdido a vida; como que si a manera del de los artistas pudiera haber certamen entre la naturaleza y la fortuna, sería muy difícil discernir si aquélla los había hecho más semejantes en las costumbres o ésta en los sucesos.” (Vidas Paralelas, Plutarco, Tomo II, Librería El Ateneo editorial, Colección Clásicos Inolvidables, Buenos Aires – Argentina, 1952, p. 530-531)

Neste exato momento, até mesmo a imprensa que atacou intensamente Dilma Rousseff passou a reconhecer que a popularidade da presidenta foi restaurada, que o Impedimento foi abortado, que a oposição não conseguiu nem derrubá-la, nem chantageá-la, tampouco obrigá-la a renunciar. Dilma enfrentou inimigos fora do governo e dentro dele. Michel Temer quis se agigantar e foi reduzido à miserável condição de um anão decorativo. Eduardo Cunha está mais perto de perder o cargo e de ganhar a prisão do que de conduzir o golpe de estado que arquitetou para conseguir se tornar impune. E até mesmo FHC começou a se enrolar no crime organizado durante seu governo.

Dilma não é uma grande oradora, verdade. Mas ela não é covarde, nem teme os perigos da guerra política. Ao contrário de Demóstenes e Cícero, nossa presidente não fugiu no auge do conflito. A virtude de Dilma é a resistência, não a eloquencia. Ao contrário dos que a criticam porque ela não é capaz de inflamar a militância com discursos arrebatadores, a presidenta provou, na prática, que é preciso muito mais do que belas palavras, frases de efeito e chistes sofisticados para fazer aquilo que João Goulart não fez e para evitar aquilo que foi feito por Getúlio Vargas.

A imprensa, por outro lado, não tem nada a comemorar. Em 2015 derrota do PIG foi avassaladora. E o elemento mais importante desta derrota não foi a oratória de Dilma Rousseff. A chave para entender a vitória da presidenta não está nos discursos dela. Ironicamente, é justamente isto que os críticos de Dilma Rousseff dentro e fora do seu campo ainda não conseguiram entender.

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