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Diretora-executiva da Rede Sarah fala ao Correio sobre a perda do “eu”



Lilian Tahan
Publicação: 23/12/2011 08:19 Atualização: 23/12/2011 09:22

 (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Lucia Willadino Braga é Ph.D. em neurociências. Conhece como poucos a cabeça dos outros. A especialização em cérebro, no entanto, não lhe prejudicou enxergar as pessoas em seu conjunto. Mais que isso, a ver o que têm de melhor. Essa é uma receita que recupera feridos, cura doenças da mente, diminui a angústia no coração de acidentados e ajuda a recuperar o corpo. Lucinha, como é tratada carinhosamente por seus colegas e pacientes, é presidente e diretora-executiva da Rede Sarah, uma referência na prevenção de acidentes, entre eles os de trânsito, e na reabilitação das vítimas do asfalto, cujas estatísticas se emparelham a mortos e feridos em guerras.

Nesta entrevista ao Correio, a neurocientista fala com a experiência de quem todos os dias lida com os sobreviventes da batalha nas pistas. Quase metade dos pacientes que deram entrada este ano no Sarah são vítimas do trânsito. A maioria delas jovens, homens, motociclistas. Muitas vezes enfrentam o adversário (o caminhão, um carro, o poste) com o próprio corpo. Lucinha decreta: “Pilotar motos sem capacete é uma tragédia”. Essas pessoas, muitas vezes, perdem um membro, o movimento de braços, pernas, ficam paralisadas de um lado, mancam, tremem para o resto da vida. Mas em meio a enfermidades tão graves, a médica avalia que pior é deixar no asfalto o próprio “eu”.

“É muito ruim ficar paraplégico, é muito ruim ficar tetraplégico, perder um braço. Mas, ficar sem o eu é ainda pior. Com pancadas graves no cérebro, você passa a não se reconhecer. Seus amigos e sua família passam a não te reconhecer”, afirma. Há como evitar danos tão drásticos. O cinto de segurança, a cadeirinha, o respeito à velocidade da via são medidas universais para diminuir o risco de tragédias. Mesmo quando o pior acontece, há chances de se voltar a ter uma vida com qualidade. “A gente trabalha olhando para o que ficou, o que restou, porque muitas vezes se foca a deficiência, o que aquela pessoa não tem. Temos ganhos incríveis quando esse trabalho é inverso, quando elevamos a autoestima e mostramos do que elas são capazes”, diz a médica, cujo trabalho em Brasília e no Brasil é referência para o mundo.

O Sarah é uma referência no tratamento de pessoas que sobrevivem a tragédias no asfalto. Qual o perfil das pessoas que se tornam pacientes da rede?
Quarenta e cinco por cento dos pacientes internados no Sarah são por acidente de trânsito. Em 2000, eram 38%. Agora, esse índice é maior, uma prova de que esses desastres estão aumentando. Em geral, são jovens do sexo masculino. Os acidentes com motocicleta sobem violentamente. Esses são os mais graves. E as lesões mais comuns são no cérebro e na medula, o que pode levar a uma paraplegia, com a perda dos movimentos inferiores ou a tetraplegia, quando além das perdas, perde-se parte dos movimentos dos braços e, dependendo da altura da pancada, todo o movimento dos membros superiores. As pessoas pensam muito em lesões ortopédicas, mas as estatísticas mostram que não são tão grandes e, nesses casos, as sequelas são mais simples de serem tratadas.

Como é recuperar essas pessoas que sofreram traumas tão profundos no corpo, na cabeça e na mente?
A gente faz todo um processo de reabilitação tentando recolocar a pessoa em sua vida. E há um índice grande de pessoas que voltam a trabalhar, a estudar, a serem produtivas. É um trabalho intenso.

Quantos profissionais estão envolvidos na reabiliação de uma pessoa acidentada?
São muitos. Um neorologista, um neurocirurgião, um ortopedista, às vezes um pediatra e um neuropediatra, fisioterapeuta, psicólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas, biólogo, farmacêutico, um professor de educação física, professores hospitalares, neuropsicólogos. E a gente no Sarah trabalha de maneira muito integrada.

Ao longo da vida, as pessoas desenvolvem habilidades, aprendem uma profissão. Muitas, no entanto, chegam aqui com 50%, 30%, 10% de suas capacidades porque se envolveram em graves acidentes. Como fazer com que se agarrem à perspectiva de uma vida com limitações?

No Sarah, a gente trabalha olhando para o que ficou, o que restou, porque muitas vezes se foca a deficiência, o que aquela pessoa não tem. Temos ganhos incríveis quando esse trabalho é inverso. Se você me perguntar, medir com uma régua o que eu não tenho, vai descobrir deficiências. ‘Lucinha, você sabe dançar balé?’ Não. Então, a Lucinha é deficiente no balé. ‘Sabe tocar violino?’ Não. A Lucinha é deficiente no violino. Tentamos enxergar do que as pessoas são capazes, elevando sua autoestima. Esse é um método que tenho mostrado no mundo todo: a reabilitação no contexto, na vida. Se é um arquiteto, então vamos trabalhar com a arquitetura. O Joãozinho 30, a paixão dele era o carnaval. Ele foi nosso paciente, enfatizamos o carnaval no tratamento dele. O Herbert Vianna foi tratado por meio da música. Tentamos eliminar o estresse, jogar com o positivo. Agora, nos preocupa muito algumas situações mais difíceis de contornar.

Por exemplo…
Quando as lesões são no cérebro, a gente conta com a plasticidade neuronal, que é a capacidade de outras partes do cérebro não lesadas assumirem a função daquela que foi perdida. Mas, nos acidentes de trânsito mais graves, ocorre muitas vezes o trauma no lóbulo frontal, que é a parte da frente onde ficam armazenadas as áreas de planejamento, do processo decisório, da capacidade de inibir ou desinibir o comportamento. Mexe com a impulsividade, com a agressividade, então há repercussões em todas essas ações cognitivas. Se a lesão for próxima ao lóbulo esquerdo, na região de Broca, vai afetar a fala. Danos no lóbulo temporal (nas partes laterais) atingem os movimentos, as chamadas hemiplegias. Por isso, pilotar motos sem capacete é uma tragédia. E, mesmo com o capacete, às vezes não é possível proteger o lóbulo temporal, justamente a parte mais delicada, mais fininha da cabeça. Quando ocorrem essas lesões, é muito comum a pessoa perder a memória, que fica no asfalto.

Perder os movimentos é grave. Quando o cérebro é atingido, há risco da perda da consciência, da personalidade. Em uma tragédia, há como apontar o que pode ser pior?
É muito ruim ficar paraplégico, é muito ruim ficar tetraplégico, perder um braço. Mas ficar sem o eu é ainda pior. Com pancadas graves no cérebro, você passa a não se reconhecer. Seus amigos e sua família passam a não te reconhecer. A gente tem uma imagem de determinada pessoa que é de pavio curto, por exemplo, e, de repente, ela fica totalmente apática, porque a região da iniciativa foi atingida. Aí, tem o outro que é super bonzinho, doce, e fica super agressivo. A questão da desinibição sexual, que também é uma questão muito complicada para a família. As pessoas aprendem a ter certo comportamento na família, valores, ética. De repente, a pessoa bate a parte do controle, do comportamento, e aí uma pessoa que era educada passa a assumir outra postura. Tive uma paciente que era economista e sofreu um acidente de trânsito. Ela ficou com uma discalculia, porque afetou a área do cálculo. É um desses casos em que as pessoas costumam dizer “mas vive-se bem sem cálculo”. Não, não se vive.

Especialmente se for uma economista…
Não. Ninguém vive bem sem cálculo. É só imaginar a gente precisar pegar um táxi daqui para o aeroporto, o taxista te cobrar R$ 15 mil e você, se tiver discalculia, vai fazer o cheque e pagar, porque não tem noção. Eu perguntava para a minha paciente; “Se o taxista lhe cobrar R$ 15 mil, você vai achar caro?’ Ela dizia: “Não”. Eu perguntava; “Quanto você acha que eu peso?”. Ela dizia: “Uns 200kg”. Eu dizia: “Não, eu não sou tão gorda assim”. E ela respondia; “Não estou chamando você de gorda, você é magrinha, deve pesar uns 10kg”. Não se trata de cálculo sofisticado. É poder lidar com o troco. Isso é uma das coisas que se perde em tragédias no asfalto.

É possível estimar quantas vítimas do trânsito chegam ao Sarah com lesões no cérebro?
Das internações, 24% sofreram traumatismo cranioencefálico (TCE). É muita gente. Metade desse percentual é de pacientes que sofreram lesões ortopédicas. Dos pedestres que chegam para a reabilitaçãso nos nossos hospitais, 39% chegam com TCE. É o que chamo de lesões invisíveis, porque se alguém está numa cadeira de rodas, os outros estão vendo a pessoa com deficiência, a quem vão enxergar com um olhar diferenciado, com uma conscientização social. A vaga de deficiente é um exemplo dessa conscientização. Agora, se tenho uma lesão cerebral que não afeta meu movimento e minha fala, a minha lesão é invisível para a sociedade.

Como, então, proteger o cérebro da violência nas pistas?
O cinto de segurança protege, o airbag também. A cadeirinha é uma segurança para as crianças, a elevação do assento também para as pessoas de baixa estatura. As estatísticas mostram que um número enorme de pessoas ainda não usa o cinto. O capacete tem que ser de boa qualidade, não dá para economizar. A pessoa está totalmente fragilizada. É ela contra um caminhão, contra o asfalto. Moto eu não recomendo de jeito nenhum. Quando eu era mais jovem e não tinha esses conhecimentos, até andava, mas hoje não quero passar nem perto de moto. Tenho acompanhado a série de reportagens sobre o trânsito (publicada pelo Correio desde o último domingo). Disse ao meu filho que pegou a estrada para o verão. “Meu amigo, não deixa o cérebro no asfalto, não tenha pressa”. É preferível ficar atrás daquele caminhão o tempo que for preciso. Se estiver irritado, calma.

Como convencer as pessoas de que não vale a pena se arriscar no trânsito?
Fazendo essa conscientização por meio das crianças. Por isso a gente implantou e faz parte do contrato de gestão da rede Sarah o programa de prevenção. Entre os objetivos de o Sarah existir está a prevenção de acidentes. Trazemos as crianças das escolas públicas e privadas durante todo o ano. Só em 2011, foram 110 mil alunos de 4ª à 8ª séries. A gente começou trabalhando com adolescentes. Mas os adolescentes já não ouvem muito o que os adultos falam. Já a criança tem uma atenção. É nessa fase que a gente os fisga, entre 10 e 12 anos, quando têm as operações mentais para entender, ainda não entraram no período tão rebelde e registram que se não usarem capacete ficarão com lesões no cérebro, se não usarem o cinto de segurança vão se machucar muito, podem morrer.

Uma das reportagens sobre os órfãos do asfalto mostrou que o Poder Público investe na educação no trânsito apenas 2% da sua receita com multas. A senhora confia que aplicação mais generosa para a formação de jovens e crianças diminuiria as estatísticas
de morte no trânsito?
É nosso foco, é no que acreditamos. Já conversei sobre esse assunto em reuniões ministeriais. A presidente Dilma lançou um novo programa de reabilitação. No bojo da discussão, está a educação no trânsito. No Sarah, formamos 110 mil crianças, o que é muito, mas temos de pensar em termos de Brasil.

Todos os que se acidentam são vítimas. Mas a criança não tem poder de decidir a velocidade do carro, se vai ultrapassar ou não, até mesmo se será transportada em uma cadeirinha ou ficará solta. É, muitas vezes, vítima duas vezes. Como lidar com esses seres tão frágeis?

Com a informação. Queremos formar aquele filho que entra no carro e fala; “Pai, bota o cinto, porque sem cinto eu não vou”. O programa de prevenção é muito importante nesse sentido, até porque hoje a criança é mais ouvida na sociedade. Ela, muitas vezes, é quem chama a atenção para que o adulto não fale ao telefone, não corra, respeite a velocidade da via. “Pai, está escrito 60km/h e você está a 70km/h”. As crianças são fantásticas, temos que trabalhar com elas para a multiplicação desses ensinamentos. Me chama muito a atenção no Sarah aquelas pessoas que não querem perder tempo. Você resolve falar no celular enquanto dirige para o trabalho porque quer ganhar um minuto. Depois perde seis meses, um ano ou uma vida inteira se reabilitando.

45% dos pacientes internados no Sarah são por acidente de trânsito. Em 2000, eram 38%.
Agora, esse índice é maior, uma prova que os desastres estão aumentando”

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1 Comentário

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  • Excelente o artigo, mesmo para quem não tem vítimas do trânsito na família. Pode-se (e deve-se – eu já o fiz) fazer a divulgação para o máximo possível de pessoas.