Folha trai sua história ao sabotar as Diretas já

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No momento em que 85% dos brasileiros desejam a saída de Michel Temer e a realização de eleições diretas, segundo aponta o próprio Datafolha (leia aqui), o jornal da família Frias faz de tudo para sabotar a vontade popular.

Além de ter apoiado o golpe de 2016, a Folha deu sustentação total a Temer, chegando até a contratar uma perícia de baixa qualidade para salvá-lo (leia aqui), e, neste domingo, se coloca na linha de frente com as diretas.

Com isso, Otávio Frias Filho faz um movimento oposto ao de seu pai, Otávio Frias, que, mesmo tendo apoiado a ditadura militar de 1964, chegando a emprestar carros para o DOI-Codi, percebeu a mudança dos ventos e foi o primeiro a abraçar o movimento das diretas-já, quando a ditadura apodrecia.

No Brasil de hoje, a Folha consegue ser mais conservadora do que a Globo.

Sobre a guinada editorial da Folha, vale a pena ler o texto postado pelo cientista político Luis Felipe Miguel, em seu Facebook:

Em 1983, a Folha de S. Paulo tomou uma decisão ousada e apoiou a campanha das diretas. Foi uma decisão mercadológica. O jornal reforçou sua identidade com um público leitor que já não aceitava mais a ditadura. Projetou uma imagem “progressista”, até mesmo “transgressora”, de forma surpreendente para uma empresa que, pouco antes, mergulhara até o pescoço na cumplicidade com o terrorismo de Estado. É necessário reconhecer: foi uma jogada de mestre do velho Octávio Frias. A Folha tornou-se o maior e mais influente jornal do país.

Hoje, o jornal segue no rumo oposto. Está na linha de frente da defesa de Michel Temer e, sabendo que a permanência do golpista no poder está se tornando inviável, faz de tudo para abater no nascedouro a nova campanha das #DiretasJá. A manchete de hoje é um primor: “Maiores partidos rejeitam votar a favor de Diretas-Já”. Deve ser um furo de reportagem digno de um Prêmio Esso: a Folha “apurou” que as direções do PMDB, PSDB, DEM etc. são contra as diretas. O objetivo de dar informação tão banal em manchete é cristalino: fazer pensar que a campanha é inútil, que o jogo já está decidido.

Se tudo se resumisse ao Congresso, seria isso mesmo. Quanto mais a pressão por diretas crescer, porém, maior será o custo de escolher o substituto de Temer sem consultar o eleitorado. É isso que a Folha deseja evitar.

Na página 3, com direito a chamada de capa, um artigo assinado por Temer, afirmando que permanecerá até o final no cargo que usurpou – “a serviço das reformas” – e proclamando sua honestidade e sua devoção à democracia e à Constituição. Mesmo depois do vexame da entrevista exclusiva, em que a Folha foi incapaz de perceber contradições gritantes na defesa que Temer fez de si mesmo, o jornal permanece como veículo privilegiado da comunicação do Planalto.

O que mudou na Folha, da primeira campanha das diretas para cá? Não creio que apenas a falta de horizontes de Frias Filho explique. Mudou também o mercado, mudaram as condições de existência dos jornais. A Folha mantém seu discurso do “mandato do leitor”, a bizarra construção ideológica com que busca justificar a falta de pluralidade do mercado de mídia brasileiro, mas claramente se despreocupou disso. No mundo novo que as tecnologias da comunicação geraram, é cada vez mais difícil sobreviver vendendo informação. É mais negócio vender influência, alugando, a quem puder pagar, o que restou de seu prestígio.

Por: Brasil 247

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