Delatores da Odebrecht pedem que STF não divulgue vídeos de depoimentos

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Quase um ano depois de vir à tona a frase do ex-presidente José Sarney de que a delação de diretores da Odebrecht equivaleria a uma “metralhadora ponto 100”, o meio político segue reforçando o estoque de coletes à prova de balas para resistir à revelação do conteúdo do que os 77 executivos da empreiteira disseram ao Ministério Público Federal (MPF). Nessa sexta-feira (10/3), no entanto, pela primeira vez, os políticos concordaram com os delatores responsáveis por detalhar o esquema de corrupção: os advogados pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que os vídeos dos depoimentos não sejam divulgados.

Os responsáveis por defender os ex-executivos querem evitar a exposição dos clientes. Eles temem que os ex-funcionários da empreiteira sejam reconhecidos na rua e possam vir a sofrer alguma retaliação. Assim como os advogados, os políticos também torcem para que os pedidos sejam acolhidos pelo relator na Lava-Jato no STF, o ministro José Edson Fachin — até o fechamento desta edição, pelo menos 16 petições haviam sido protocoladas neste sentido. Nos bastidores, a avaliação é de que o conteúdo a ser revelado será devastador, mas a ausência de vídeos de ex-executivos contando os detalhes pode amenizar o desgaste e dar menos munição aos adversários para tratar do caso.

Enrique Castro-Mendivil/Reuters

A ação dos advogados surgiu após a assessoria do STF pedir aos jornalistas para levarem um HD externo à Corte para terem acesso a todo o conteúdo das delações. Como se trata de um dispositivo de armazenamento de dados com ampla memória, houve a suspeita de que não seriam divulgados apenas os documentos relativos à delação, mas também as imagens. Os advogados querem evitar apenas a exposição dos vídeos, não o que falaram os delatores. Eles citam, como exemplo, o que o juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava-Jato em primeira instância, faz em relação a requerimentos dessa natureza. Nesses casos, geralmente ele divulga apenas o áudio dos depoimentos.

As revelações das pessoas ligadas à construtora devem culminar em pedido de abertura de inquérito do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Profissionais do MPF estão trabalhando na análise das delações há meses e havia a expectativa de que a chamada “lista do Janot” fosse divulgada até ontem. Apesar do clima de apreensão na Esplanada dos Ministérios, porém, o MPF deve apresentar os nomes dos envolvidos com foro privilegiado ao STF e os do que não têm, ao juiz Sérgio Moro, só na próxima semana.

Pavor dos políticos

Dos 77 delatores, 21 já tiveram a identidade revelada (veja quadro). Os relatos mais esperados são os do ex-presidente do Conselho de Administração da empreiteira Emílio Odebrecht e de seu filho e herdeiro no comando da empresa, Marcelo Odebrecht. No cargo máximo da construtora, eles lidavam com a cúpula dos grandes partidos. Também causa frisson no Congresso o que tem a dizer Benedicto Barbosa Junior, conhecido como BJ, apontado pelo Ministério Público Federal como o chefe da área da empreiteira que ficou conhecida como “departamento da propina”. Luiz Eduardo Soares é outro por quem os políticos não querem ser lembrados: ele era um dos responsáveis pelas offshores utilizadas pela Odebrecht em transações internacionais ilegais.

Ex-diretor de relações institucionais, Alexandrino Alencar era quem tinha a missão oficial de lidar com os diversos governos. Além disso, a delação dele é uma das mais aguardadas porque Alencar seria um dos mais próximos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro lado do espectro político está Carlos Armando Paschoal: ex-diretor da Odebrecht em São Paulo, é temido por tucanos porque teria relação próxima com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). José de Carvalho Filho não tinha posição de chefia na empresa, mas tem potencial para derrubar o homem mais poderoso do governo Michel Temer: ele teria sido o operador do pagamento deR$ 4 milhões para o atual chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha.

Quem são os delatores

Confira alguns dos nomes de pessoas ligadas à Odebrecht que fecharam acordo de colaboração com o Ministério Público Federal

Emilio Odebrecht    Ex-presidente do Conselho de Administração do grupo. Foi sucedido pelo filho em 2008

Marcelo Odebrecht    Ex-presidente da empreiteira. Assumiu a presidência do Conselho de Administração no lugar do pai e deixou o posto no fim de 2015, seis meses depois de ser preso

Márcio Faria da Silva    Diretor-presidente da Construtora Norberto Odebrecht, principal empresa do grupo

Cesar Ramos Rocha    Trabalhava com Márcio Faria como gerente da área financeira

Claudio Melo Filho    Ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht. Trabalhava em Brasília e era o responsável pela relação da empreiteira com o Congresso

Benedicto Barbosa da Silva Junior    Apontado pelo MPF como o chefe do departamento de propina da empresa. Foi presidente da Odebrecht Infraestrutura

José de Carvalho Filho    Funcionário de Melo Filho seria o operador do pagamento de R$ 4 milhões ao atual chefe da

Casa Civil, Eliseu Padilha

Leandro Azevedo    Respondia pela Odebrecht no Rio de Janeiro e, segundo informações vazadas à imprensa, teria relação com o PMDB carioca

Hilberto Mascarenhas Filho    Segundo o MPF, era um dos chefes do “departamento de propina”. Era diretor da Odebrecht em Salvador

Carlos Armando Paschoal    Ex-diretor da Odebrecht em São Paulo, foi apontado em vazamentos como o responsável por manter a relação da empresa com o governador Geraldo Alckmin

Alexandrino Alencar    Ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, seria próximo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Fernando Luiz Ayres Reis    Ex-presidente da Odebrecht Ambiental

Luiz Eduardo da Rocha Soares    Como executivo da empresa, era um dos responsáveis pelas offshores utilizada pela empreiteira em transações financeiras ilícitas

Paulo Cesena    Ex-presidente da Odebrecht TransPort, empresa de logística do grupo
Paulo Sergio Boghossian    Ex-diretor da empresa, é investigado por ser um dos responsáveis pelas negociações escusas

Pedro Novis    Ex-presidente do Conselho de Administração da empresa

Roberto Prisco Ramos    Ex-presidente da Odebrecht Óleo e Gás, também atuava no “departamento de propina”

Rogério Santos de Araújo    Trabalhava na área de engenharia industrial e era funcionário de Márcio Faria

Fernando Migliaccio    Ex-diretor da Odebecht em Salvador e também teria atuado no “departamento de propina”. Fechou o acordo de delação à parte dos 77 executivos

Maria Lúcia Guimarães    “Secretária” do “departamento de propina”. Fechou o acordo à parte dos executivos
Paulo Melo    Ex-presidente da Odebrecht Realizações Imobiliárias

Por: Correio Braziliense

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