Brasil

Preso político há um ano, Lula ainda mobiliza o País

Há quase um ano sem contato direto com o que acontece do lado de fora das paredes da Polícia Federal de Curitiba, em um silêncio forçado, Luiz Inácio Lula da Silva causa impacto na vida de muitos brasileiros. Aos 73 anos, o ex-presidente continua a despertar sentimentos e opiniões opostas.

De um lado, aqueles que reconhecem que grande parte da população foi beneficiada por suas políticas públicas. São os que sentiram na própria pele como as condições de vida melhoraram durante seus governos. Do outro, os que reproduzem um discurso de que Lula é um atraso para o país e, a todo custo, tentam manchar sua imagem. Tal dualidade é constante na vida política do ex-presidente, mas, sua importância na história do país é inegável. São diversos os motivos que fazem com que Lula não caia no esquecimento da população e não saia dos holofotes da mídia.

Campanhas, atos políticos, processos, investigações e falas públicas contundentes. Esse são os cenários geralmente associados a ele. Ao longo de sua trajetória, a imagem do homem que respira política na maioria das vezes sobressai a do Lula pai e avô. Mas, subjetividades, crenças e opiniões – pilares fundamentais na formação de todo o homem político – o fazem um ser humano como todos os outros.

Perdas inestimáveis

A primeira vez que apareceu em público após ser preso, foi para participar da cremação de seu neto, Arthur Lula da Silva, que morreu aos sete anos idade. Com base no artigo 120 da Lei de Execução Penal, o ex-presidente foi autorizado pela Justiça Federal a participar da cerimônia.

Por alguns segundos, entre o carro da Polícia Federal e a sala onde seu neto estava sendo cremado, apoiadores e jornalistas puderam vê-lo. Abatido, acenou rapidamente, sem esconder a dor de avô, que acabara de perder um de seus netos de forma tão trágica.

“Nunca vi meu pai tão triste desde que eu me entendo por gente. Nunca. Ele falou que não achava justo, que não era a ordem natural, que tinham pessoas mais velhas que poderiam ter ido, que ele não entendia… Disse para o Arthur que o esperasse no céu, que ele iria levar o diploma da inocência dele”, conta Lurian Lula da Silva, filha mais velha do ex-presidente, que pode ficar apenas 1h30 com sua família, em um momento de luto tão grande. “Não foi suficiente. Ele estava há quase um ano preso, longe da convivência familiar. Longe do dia a dia do neto”.

Além de ser privado de liberdade sem que o julgamento chegasse aos tribunais superiores do país, essa a terceira perda familiar em um curto período de tempo que Lula sofre. Em fevereiro de 2017, quase um ano após ser alvo de condução coercitiva determinada por Sérgio Moro, Marisa Letícia Lula da Silva, esposa do petista, morreu vítima de um AVC. Companheira de vida e de luta do ex-presidente por mais de 30 anos, militou ao lado de Lula desde meados dos anos 70 e encorajou outras mulheres a se juntarem ao movimento sindical.

Foi duramente atacada ao longo de sua trajetória por estar do mesmo lado da trincheira que Lula, o aconselhando e apoiando ao longo de seus dois governos. Costureira da primeira bandeira do PT, sua perda foi sentida por todos os militantes e apoiadores do partido, que carinhosamente a chamavam de “Dona Marisa”, assim como Lula.

Em janeiro deste ano, Lula foi impedido de participar do velório de seu irmão mais velho, Genival Inácio da Silva, de 79 anos, conhecido como Vavá, que morreu em decorrência de um câncer no pulmão.

“Ele resiste pelos que já foram e pelos que ficaram”, diz Lurian, que assume não saber de onde Lula continua tirando forças para lutar em defesa de sua liberdade e pelo resgaste de outro projeto de sociedade. O projeto que tirou o Brasil do mapa da fome, que inseriu pobres e negros na universidade e melhorou as condições de vida e trabalho no campo.

“Todo mundo fala: ‘Lurian, tenha força, porque ele é gigante’. De fato, ele é gigante. A cada cem anos surge um como ele, tanto quanto homem, quanto pai, quanto político. Ele é um cara que sobreviveu a tudo. Sobreviveu à miséria, à fome, ao preconceito, à perseguição, à ditadura. Ele tem uma coisa que acho que é muito da Família Silva, de tentar ter bom humor em algum momento de dor para poder resistir”, relata a primogênita.

Já Dilma Rousseff acredita que são justamente as violações e perseguições como as que ela e Lula enfrentam cotidianamente, que dão força para resistir. Torturada durante a ditadura militar brasileira, a ex-presidente argumenta que Lula também sofre uma forma de tortura, preso em uma solitária, longe do povo.

“O sofrimento, a injustiça e a tortura fazem, na verdade, crescer dentro de alguns de nós a vontade de lutar, sobreviver para dar a volta por cima e vencer os nossos algozes. Vencer não pela força, mas pela superioridade que mostramos ao ficar vivos, ao manter a espinha ereta, a mente lúcida e os nossos princípios fortalecidos pela certeza de que estamos do lado certo da história. É exatamente o caso de Lula”, pondera.

A ex-presidente acrescenta “Ele sabe que naquele cubículo em que foi jogado está acompanhado de milhões de brasileiras e brasileiros que o amam, gente que o admira e, também, gente que sabe que, neste momento histórico, sem ele, o país continuará se desfigurando”.

Origem nunca esquecida

De uma família de nove irmãos, Luiz Inácio passou pelas mesmas dificuldades que outras tantas crianças camponesas do semiárido nordestino. Nascido em outubro de 1945, no município de Caetés, no agreste pernambucano, a fome foi uma companhia constante em sua infância.

Na opinião de Gleisi Hoffmann, deputada federal pelo Paraná (PT), as origens de Lula o tornaram o que é e lhe deram condições de resistir contra perseguições em toda sua trajetória política.

“Lula é o retrato mais bem acabado do povo brasileiro. Do homem simples, lutador, do trabalhador, daquele que luta para sobreviver. Justamente por ser assim, ter vindo da onde veio e chegado à presidência da República, soube o que fazer como presidente. Como ninguém, Lula sentiu a falta de oportunidade na vida. E seu governo foi um grande governo de oportunidades, por isso o povo melhorou, teve condições de prosperar.”

Quando falam sobre ele, muitas pessoas citam Dona Lindu, mãe do petista, que criou nove filhos pequenos sozinha e é sempre relembrada nas falas do ex-presidente. “A força [de Lula] vem de Dona Lindu. Ele sempre disse que ela dizia para ele: ‘Teima meu filho. Teima que dá certo’. E ele é um teimoso convicto. A força vem do povo, da confiança que ele tem de poder melhorar as coisas”, complementa Hoffmann.

Líder popular

As imagens históricas de Lula são sempre acompanhadas de muitas mãos, de muita gente, de muitos abraços. A comunicação com o povo é incontestável marca do ex-presidente. Preso, privado de contato com seus próprios familiares e da população, foi por meio de cartas e bilhetes que encontrou uma forma de se expressar sobre o que acontece no Brasil e continuar a defender seus posicionamentos.

“Sempre caminhou ao lado do povo”, afirma Paulo Okamotto, presidente do Instituto que leva o nome do ex-presidente. “Ele sabe que é uma pessoa muito querida pela população, que tem muito carinho dos trabalhadores, muito reconhecimento. E isso, para ele, é uma tranquilidade para enfrentar as adversidades que a vida apresenta. É o que tem mantido sua força”.

Okamotto também avalia que “os últimos anos foram de muita provação para Lula” e o define como um “profundo conhecedor do povo brasileiro”. “Quem conhece o Lula, quem de alguma forma já conversou com ele, viu como ele trata as pessoas, como ele se preocupa, realmente se apaixona porque ele é um político diferenciado. Faz política com P grande. O legado que Lula construiu e constrói é pela prática dele”, sustenta.

Destaque internacional

O legado do petista não reverbera apenas nas falas daqueles que trilharam ao seu lado. Os números mostram os feitos de seu governo: Em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo PIB (Produto Interno Bruto) em dólar, segundo dados do Banco Mundial e FMI. Em 2011, um ano após Lula sair da presidência, chegou a ocupar a 6ª posição.

Após seus governos, a nota do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, que era de 0,649 no início dos anos 2000, chegou a 0,755. Entre 2003 e 2010, houve um aumento real de 80% no salário mínimo, além de programas de transferência de renda essenciais como o Bolsa Família. Hoje, consolidado como referência internacional, atende mais de 13,9 milhões de famílias, que recebem, em média, R$ 178. O coeficiente Gini, cálculo do Banco Mundial para medir o índice de desigualdade de renda, também apresentou melhora: passou de 58,6, em 2002, para 52,9, em 2013.

Dilma Rousseff ressalta que alcançar essa e outras marcas fez com que o Brasil chamasse atenção de potências mundiais. “Nos fortaleceu ao mostrar que nossos sonhos eram realizáveis. Deixou claro aos milhões de brasileiros, sempre excluídos do poder e vítimas da injustiça social, que era e é possível, e necessário, uma vida melhor para os mais pobres. E isto, sem violência e sem guerras. Demonstrou que a redução da desigualdade é um pré-requisito para a paz, a democracia e um efetivo desenvolvimento”, afirma a ex-presidente.

Para ela, Lula foi subestimado pela elite, que não aceitou como um retirante nordestino poderia ter uma capacidade de articulação política tão grande e ser aclamado pelo povo. “Eu tive a oportunidade e o orgulho de, por várias vezes, assistir ao reconhecimento da liderança de Lula, nos aplausos e nas entusiasmadas manifestações feitas nos encontros internacionais. Ao perceberem o tamanho de Lula, o desprezo das elites brasileiras se transmutou numa perigosa mistura de ódio e medo”.

São muitas as opiniões sobre ele. Mas até mesmo quem o critica não têm argumentos suficientes para negar que a história do Brasil se mistura, em muitos momentos, com a história de Lula. “Ele é filho de Dona Lindu. Ele teima, ele resiste, ele tem consciência que ele vai lutar até o fim e que ele só sai dali com a inocência dele”, garante Lurian Lula da Silva.

Fonte: Brasil 247